Marina Sena diz que vai voltar à MPB, mas o que é MPB em 2023?

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♪ OPINIÃO – “A Marina da MPB vai voltar, gente. Eu faço MPB, tá? É pop, mas é MPB. Odeio quando o povo fala que eu saí da MPB”. A frase dita por Marina Sena no fim de semana, em show na edição de 2023 no festival Primavera Sound, soa no mínimo curiosa. Ou anacrônica, fora de época.
MPB é a sigla criada na era dos festivais, a partir de 1965, para designar música produzida e cantada por geração de cantores, compositores e músicos projetados na segunda metade dos anos 1960, a maioria com formação universitária, mesmo que incompleta.
A rigor, MPB nunca foi um gênero musical, pois o repertório da MPB engloba canções, sambas, toadas, baiões e outros ritmos. Só que a sigla MPB acabou sendo assimilada e difundida como gênero. Tanto que existem os ícones da MPB – Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo, Elis Regina (1945 – 1982), Gal Costa (1945 – 2022), Gilberto Gil, Maria Bethânia e Milton Nascimento, além dos temporãos Djavan e João Bosco – e existem os ídolos do samba, como se existisse um muro que separasse os gênios da MPB dos bambas do samba como Martinho da Vila e Paulinho da Viola.
Esse muro imaginário afasta ainda mais aos cantores populares – como Roberto Carlos e Odair José – desta elite da música brasileira.
Cantora e compositora mineira de 27 anos, Marina Sena não irá “voltar” à MPB porque simplesmente nunca foi da MPB. Assim como, a rigor, Adriana Calcanhotto e Marisa Monte também nunca foram da MPB. E demérito nenhum há nisso para ninguém. As três artistas mencionadas são de outras gerações, de outras turmas.
Em cena desde 2014, Marina já surgiu em universo pop do qual a MPB é somente uma (excelente) referência. Até porque, se compreendida como gênero, a MPB teve somente uma década áurea após a era dos festivais – os anos 1970 – e começou a implodir no mercado a partir de 1982 com a explosão do rock brasileiro.
Atualmente, a MPB representa nicho no mercado da música brasileira. Artistas como Caetano, Chico, Gil e Bethânia ainda atraem público para os shows, mas estão longe do mainstream dominado pela estilização pop de gêneros como sertanejo, funk, pagode e forró.
Marina Sena bebe da fonte rica da MPB. Tanto que fez (controvertido) show com o repertório de Gal para celebrar a cantora morta no ano passado. Mas o som de Marina nunca foi MPB. Nem mesmo uma “MPB pop”, como ela rotula.
O fato é que a artista mineira entrará em novo ciclo artístico a partir de 2024, rompendo a parceria com o produtor musical Iuri Rio Branco – mudança oportuna porque o segundo álbum de Marina, Vício elegante (2023) não bisou o efeito e os feitos do disco anterior da artista, De primeira (2021).
Só que, na prática, a “Marina da MPB” não poderá voltar porque, a rigor, nunca existiu. Cantora de MPB – se a sigla continuar a ser percebida como um gênero… – é Mônica Salmaso, intérprete que vem sendo admitida no seleto clube dessa sempre majestosa, mas cada vez mais anacrônica, MPB.

Fonte: G1 Entretenimento